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Em uma Terra devastada pela própria estupidez humana, uma figura solitária vaga cumprindo seu objetivo, tirando o que pode de seus semelhantes já caídos para ajudar em sua jornada, alimentando sua mascote e parando um pouco com seu iPod para ouvir músicas durante uma noite fria em seu abrigo. Não, esses não são os primeiros 5 minutos de “Wall-E”, mas a introdução deste “O Livro de Eli”, fita dirigida pelos Irmãos Hughes e protagonizada por Denzel Washington.

Em um clima que nos lembra a franquia “Mad Max”, Eli (Washington) vaga pelo que já foi os Estados Unidos da América junto a seu livro, sempre rumo ao oeste. No seu caminho, todas as outras pessoas são um perigo em potencial. Afinal, em um mundo sem a presença do Estado, o que restou da humanidade retornou ao modo de sobrevivência hobbesiano (“o homem é o lobo do homem”).

Mesmo sendo um combatente de alto nível, Eli ignora as injustiças que testemunha em seu caminho, estando focado apenas em levar o seu livro para o oeste. Certo dia, ele encontra uma “cidade”, na qual ele pode recarregar seus mantimentos. O lugar é dominado por Carnegie (Gary Oldman), que mantém um exército de vândalos sustentado por seu bar e regados água, álcool e mulheres.

Um dos poucos homens letrados que sobreviveram ao cataclisma que dizimou a população do planeta 30 anos antes, Carnegie está em busca de um determinado livro, que pode expandir sua esfera de dominação a uma escala inimaginável. Não tarda para que ele descubra que o estranho que está passando por seus domínios carrega o que pode ser o último exemplar desse livro.

A partir daí, começa um jogo de gato-e-rato entre esses dois homens, em meio a um terreno devastado, com Eli ainda tendo de contar com a presença, quase sempre incômoda, de Solara (Mila Kunis), enteada do vilão que vê em Eli um meio de escapar da tirania de Carnegie.

Chega a ser irônico notar que, mesmo o longa tendo um subtexto cristão, com a natureza do livro de Eli ficando clara com pouco tempo de projeção, o filme jamais se furta em mostrar a violência, contando com uma mensagem que considero até perigosa, algo que me lembrou um pouco “Coração Valente” e, principalmente, “A Paixão de Cristo”. É como se o longa dissesse que, sem a religião cristã, o mundo seria levado ao caos, colocando outras crenças em último plano, contando apenas com menções ínfimas ao judaísmo e ao islamismo, que parecem ter sido colocadas às pressas pelo roteirista estreante Gary Whitta.

Paradoxalmente, é interessante a noção que Carnegie possui de dominação carismática de um povo através da religião, embora seja triste que este personagem de Gary Oldman seja retratado como apenas mais um vilão e não uma figura complexa, vide a primeira vez que o vemos, quando ele está lendo uma biografia de Mussolini. Oldman realiza um trabalho decente em retratar a frieza e a obsessão de Carnegie pelo livro, fazendo um bom paralelo com o “mocinho” do filme.

Como não poderia deixar de ser, Denzel Washington é o grande destaque do filme. Vivendo o típico herói solitário, o ator dá uma dignidade incrível a Eli, conseguindo transmitir ao público a fé e a convicção do protagonista, fazendo funcionar até mesmo a revelação um tanto quanto absurda sobre a natureza do seu personagem no final do filme. Não são apenas as cenas de ação protagonizadas por Washington que nos fazem acreditar nas habilidades quase sobre-humanas de Eli, mas o carisma do ator.

Mila Kunis surge bastante apagada no filme, com sua Solara sendo praticamente engolida pelas performances de seus colegas de cena. A falta de presença de cena da atriz ainda repercute no final de sua personagem, enfraquecendo-o e muito.  Em pequenas pontas estão alguns atores dos quais gosto muito. Michael Gambon vive o idoso George, um senhor de idade que vive ao lado de sua esposa Martha (Frances de la Tour) em uma casa no meio do nada, que nos remete a um certo conto de fadas e Malcolm McDowell, o eterno Alexander de Large de “Laranja Mecânica”, que vive Lombardi, elemento extremamente importante na conclusão da trama.

Visualmente, a fita é bastante competente. Apostando em tomadas longas e em planos-sequências para dar um clima de maior realismo às cenas de luta, os irmãos Hughes conseguem não apenas criar um ameaçador ambiente pós-apocalíptico, como também inserir o público dentro daquela Terra devastada através da cinematografia, comandada por Don Burgess, que emula os efeitos do tal “flash” que quase destruiu o planeta.

A montagem do filme também é competente, jamais deixando o ritmo do longa ficar moroso demais, mantendo o público realmente interessado na ação. No entanto, a montagem em paralelo no final do filme quebra um pouco o andamento da trama, emperrando o filme justamente em sua conclusão. A despeito de seu contexto relativamente simplista e desse escorregão na montagem, “O Livro de Eli” consegue entreter como cinema, embora não seja uma obra das mais marcantes.

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